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UltraTrail da Serra da Freita 2007

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Carta relato, de um companheiro Porto Runners, ao filho, já adulto que vive e trabalha longe, escrita no dia seguinte ao do Ultra Trail da Serra da Freita de 2007.

 

 

Olá P:

 

 

No Domingo fiquei bastante cansado e dormi 11 horas seguidas! Sei que me telefonaste, a Avó disse-me que lhe tinhas ligado preocupado por eu não atender, mas quando telefonaste eu já tinha “aterrado”... De manhã tinha-me levantado ás 4:30 e não tinha dormido grande coisa, com a ansiedade e receio de não acordar. Como sabes fui dormir a casa dos avós, que fica apenas a cerca de 25 minutos, de carro, do local da partida, o Parque de Campismo do Merujal, na Freita (era o local onde parávamos o carro nas nossas excursões pela Freita quando eras miúdo, não existia ainda o parque de campismo, nem estrada asfaltada...). A semana tinha sido dura, na Terça 36 horas seguidas a trabalhar com apenas 1h de descanso, nos outros dias sempre muito trabalho e poucas horas de sono, e isto sem ter recuperado devidamente do esforço da corrida na Serra da Estrela no Domingo anterior (Circuito dos 3 Cântaros). O Ultra Trail da Serra da Freita foi terrível e fantástico! Podes ver no Google por esse título ou ir ao site da “Confraria Trotamontes”, organizadora do evento.

 

 

Envio-te também um link (ver abaixo) para veres fotos e ainda em anexo, 4 fotos tiradas por amigos. Numa delas está o famoso Dean Karnazes, considerado como talvez o ser humano mais atlético e, pela TIME, como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. O lançamento da tradução portuguesa do seu famoso livro trouxe-o a Portugal e o meu amigo Moutinho “levou-o” a participar no Ultra Trail. Para nós, corredores amadores, participar ao lado do Karnazes deve ser algo como para um praticante de futebol jogar uma partida com o Beckham ou o Vítor Baía, ou um tenista bater umas bolas com o Federer, com a diferença de que na corrida isso é possível e nas outras modalidades apenas um sonho...

 

 

A partida foi ás 6 da manhã e levei oito horas e trinta e seis minutos para fazer o percurso! No total 50 km, duríssimos, com 2300 metros de subida acumulada e outros tantos de descida. Cerca de 3 km pelo leito do rio Paivô (lindíssimo), saltando de pedra em pedra, caminhando na água, escorregando constantemente, caindo muitas vezes, correndo riscos elevados e tendo até por 4 vezes que atravessar o rio com água (gelada) pelo peito! Uma hora e vinte minutos para fazer esses 3 km!!! Fora disso, subidas e descidas por trilhos pedregosos ou a corta mato pelo meio da urze e do tojo ou da erva e até de um campo de milho. Por estradão ou estrada, quase nada, talvez 1 ou 2 km no total! Éramos 102 à partida, mas alguns, poucos, desistiram. Grande companheirismo, um ambiente fantástico de entreajuda e de boa disposição. Esforço permanente, noite fria e neblina no início, depois um pouco de sol, frio encharcado no rio, sol e algum calor nos 6 km de subida contínua desde os 250 até aos 1050 metros de altitude após o rio, e, finalmente nevoeiro, chuva e vento gelado no planalto, a 1000 metros de altitude, nos km finais. Cerca de 6000 calorias dispendidas, grande necessidade de líquidos e de sólidos.

 

 

No princípio fazia frio e estava bastante escuro, uma vez que o céu estava totalmente carregado de nuvens. Corri de luvas e com duas camisolas. As luvas foram úteis para amparar as muitas quedas que se haveriam de suceder quando, passado o planalto, se começou a descer. Os primeiros kilometros foram cumpridos sempre em grupo, em fila indiana, uma vez que os trilhos, quando existentes, eram muito estreitos. Reinava a boas disposição. Conversei muito com vários corredores, procurando saber de onde era, qual a sua experiência e motivação. O dia começou a nascer e a paisagem a revelar a sua beleza. A fila começou a alongar-se e a visão de corredores espalhados pela serra transmitia uma força especial. Corria-se a bom ritmo, embora tropeçando em pedras e raízes, arranhando pernas e braços no tojo ou nas silvas, saltando sobre a carqueja ou sobre as zonas encharcadas, passando cursos de água, ou pequenas pontes sobre o Caima. Depois começou a descida, cada vez mais acentuada.

 

 

Passavam-se cercas de controlo do gado, lameiros, zonas ardidas, atravessava-se ocasionalmente uma estrada. Corri com um companheiro, mais velho do que eu, que no Domingo anterior tinha feitos os duríssimos 90 km da Comrades na África do Sul e que ali estava, alegre a saborear os encantos da serra da Freita. Corri com outros para quem esta era a primeira aventura do género, receosos como eu. Corri com amigos ou conhecidos de outras corridas a quem era um prazer rever. De vez em quando numa das grandes curvas do caminho, dava para ver os meus companheiros de clube e para gritar os seus nomes e transmitir ânimo. Ao fim de pouco mais de uma hora começou uma terrível descida, penso que o chamado Trilho do Carteiro. Caí de costas batendo forte numa pedra e fiquei esticado no chão a ver se estava inteiro e se movia as pernas. Há minha volta sucederam-se de imediato vozes preocupadas e estenderam-se mãos para ajudar. Estava bem e meti-me de novo ao caminho. O pior estava para vir! Aquela descida infernal lavava-nos até ao Rio Paivô onde nos esperava uma verdadeira aventura. A entrada no leito do rio provocou de imediato hesitações e quedas. Tentava-se descobrir por onde era o caminho e o que mais se ouvia eram palavras de incredulidade pela ousadia do organizador, o meu amigo Moutinho, em incluir tal aventura no percurso. O trajecto ao longo do rio foi muito duro. Longo, incrivelmente longo, a testar a capacidade de resistência psicológica. No meu caso quase hora e meia para sair dali, imensas quedas e sofrimento. Para alem do mais era realmente perigoso, pois havia troços em que estávamos uns bons metros acima do rio, empinados nas margens quase verticais e uma queda desamparada daria direito a danos sérios. A progressão lenta no rio atrasou-nos imenso. Ao rio seguiu-se um subida interminável, no início sem beleza e muito poeirenta, depois de grande beleza mas elevada inclinação.

 

 

Quando ao fim de cerca de 5 horas de esforço ainda estava a meio da prova, a imagem da distância por percorrer, a visão dos vales para descer e picos para subir e da distância entre nós e a meta é assustador. Muito importante foi saber que o avô estaria no posto de controlo a metade do percurso, na Póvoa das Leiras, com bebidas, comida e muda de roupa e de sapatilhas. Combináramos que estaria lá a partir das 9:15 da manhã, prevendo cerca de três horas e um quarto para a primeira metade, já que ainda estaríamos frescos e essa primeira metade era essencialmente a descer, justificando algum optimismo em relação ao tempo necessário para a percorrer. Afinal cheguei lá com quase 5 horas de prova e quase duas horas de atraso sobre o horário previsto. Sobretudo por culpa do trajecto no rio que ultrapassou em dificuldade tudo o que imagináramos... Mas saber o que me esperava na assistência do avô era um tónico excelente: uma toalha para limpar os pés, nova aplicação de vaselina para prevenir as bolhas, meias lavadas (e nada menos que as famosas Power Sox que a famosa ultramaratonista Pam Reid me tinha aconselhado em Outubro em Chicago – ela já ganhou ao Karnazes em Badwater!), sapatilhas novas, calções secos, bananas, água e um Red Bull geladinho que bebi de uma só golada! Mas mais do que tudo valeu o carinho do avô, os minutos confortavelmente sentado, a conversa animada, o olhar e as palavras de preocupação, estímulo e orgulho! Ele tinha sapatilhas, meias e comida para os 5 do meu clube e teve que esperar ainda pelos 3 que me seguiam (o meu amigo Conde, grande revelação nesta prova, já tinha passado como uma flecha há alguns minutos). O avô acabou ainda por dar boleia até à meta à minha amiga Margarida e ao marido que infelizmente desistiram (e ainda a um outro concorrente que não conheço).

 

 

A minha principal preocupação ia para o meu grande amigo Luís Pires, companheiro de muitas aventuras e um dos melhores exemplos de amizade e solidariedade que até hoje conheci. De certo modo “forcei” o Luís a participar na Freita, mas ele não estava em forma, depois da proeza de correr 12 maratonas em 12 meses. No trajecto ao longo do rio, apesar de cansado, foi a minha grande ajuda, dando-me literalmente a mão em inúmeras passagens difíceis. A minha escolha de sapatilhas para o primeiro troço revelou-se uma grande asneira: as minhas New Balance de trail, velhas de cerca de 8 anos, estão de facto muito gastas e as solas não proporcionavam aderência naquelas pedras molhadas. Nestas últimas semanas nunca tive tempo para comprar umas sapatilhas novas de trail, e paguei isso caro. Claro que todos escorregavam e caíam, inclusive o Luís, mas mesmo assim parecia mais preocupado em ajudar-me do que consigo próprio! Mas na subida que se seguiu ao rio veio ao de cima a sua falta de forma. Ainda corremos/caminhamos juntos até ao abastecimento seguinte, mas aí ele convenceu-me a seguir sem ele. Ficaria à espera do Zé Carlos ou do Rui e da sua ajuda, o que veio a acontecer. Bem me custou a separação e até ao final não tive notícias suas. Na despedida sugeri que caso desistisse poderia pedir boleia ao avô, mas, conhecendo-o bem, achei que seguiria até ao final, ainda que tal lhe custasse muito. Assim aconteceu, mas apesar de ser o melhor do nosso grupo, sofreu mais do que qualquer um de nós. Bem, voltando à assistência do avô, a verdade é que sem ela sem não sei se teria chegado ao final! Na última hora antes do encontro com o avô eu correra sozinho o que custa muito mais. A orientação ao longo do percurso exige muita concentração, e por vezes enganámo-nos. Há marcas, com fitas ou recorrendo ás marcas dos percursos de montanha, mas é necessária muita atenção e por vezes há longos troços sem marcas em que somos assaltados por dúvidas. Estive parado um pedaço no famoso Trilho dos Incas, receando estar a seguir por caminho errado e acabei até por andar para trás até ver dois corredores no mesmo trilho, sinal de que afinal não estaria enganado. O ponto de encontro com o avô representou tb a conclusão do troço mais difícil.

 

Embora a partir daí ficasse mais fácil, a verdade é que faltavam ainda várias horas e o cansaço era já muito grande. Seria mais fácil quanto ao percurso, mas mais difícil pelo cansaço acumulado. Para além do receio de uma queda grave (as quedas sem consequências foram muitas, cerca de 20), havia o receio de uma lesão, uma rotura muscular, cãibras, perturbações intestinais, vómitos, desidratação, hipotermia, sei lá. Soube no final que o segundo classificado foi de imediato evacuado para o hospital com hipotermia. Na parte final o nevoeiro cerrado arrefeceu o tempo, começou a chover e o vento forte que soprava no planalto, a 1000 metros de altitude, provocaram frio muito intenso.

 

 

Importante foi também o facto de a partir da assistência do avô ter passado a utilizar um bastão de montanhismo, daqueles telescópicos. Hesitei em usar um desde início, optei por arrancar na partida sem o bastão que tinha levado no meu carro, mas na assistência optei por levar o bastão e a decisão veio a revelar-se providencial! Foi uma enorme ajuda!

 

 

Os mais de dez minutos de descanso souberam pela vida. Alguns corredores que entretanto tinham chegado até ali preparavam-se para retomar o caminho proporcionando-me uma desejável companhia. Despedi-me do avô, que mais uma vez me animou. Lembrei-me do orgulho com que sempre o vi como um atleta, com títulos em várias modalidades na sua juventude, e não pude deixar de sentir como, já com mais de oitenta anos, ainda transmite energia e motiva. Já em casa de madrugada, me tinha ajudado nos preparativos, o que para ele não foi difícil pois como sabes continua a levantar-se todos os dias antes das seis da manhã para ir trabalhar. Foi emocionado que o deixei e caminhei até ao ponto de controlo ali ao lado para assinar a folha de registo de passagem marcar a passagem com o chip electrónico que cada um levava. Roupa lavada, barriga cheia, bastão na mão, cafeína a chegar ao cérebro, sol a brilhar, pensamentos positivos, eis-me de novo no caminho com renovada energia. Havia que aproveitar a companhia dos que se aprestavam a deixar o posto de controlo.

 

 

Prontamente deixamos a estrada para nos embrenharmos por um belo troço em altitude ao longo de um curso de água límpida em volta do qual tudo era verdejante. Os meus companheiros eram animados e faladores, incluindo o famoso Mayer Raposo, talvez o mais veterano dos concorrentes naquele dia: pernas musculadas, cabelo e bigode longos e grisalhos, irradiando força e optimismo. Um pouco mais à frente fomos apanhados por outros três corredores que vinham um pouco mais depressa e foi com esses que segui, tirando partido do rejuvenescimento proporcionado pela assistência e do efeito psicológico de já ter transposto metade do percurso. A partir daí ficamos juntos até ao final: três horas e meia juntos, com grande entreajuda! Não é fácil conseguir andamento igual, mas resultou e foi excelente. Essa parte descrevo num post em “o mundo da corrida” no fórum de ultramaratonas, o tal onde estão as fotos do link.

 

 

Assim, durante as horas que se seguiram até ao final da prova, tive o prazer da companhia do António Rebelo, do Paulo Quaresma e do António Belo (e já perto do final do Victor Silva). Tirando o Belo não conhecia nenhum deles, mas foi um magnífico exemplo de solidariedade e de camaradagem. Conjugar esforços e manter ritmo idêntico ao longo de cerca de 25 km é um feito assinalável. Apesar das muitas horas de esforço e das adversidades (terreno difícil, chuva, frio) a formação deste grupo permitiu manter a moral elevada. As queixas eram sempre expressas em tom de brincadeira, a entreajuda reinava, as piadas abundavam e a conversa fluía constantemente a atenuar as agruras do esforço. O Paulo Quaresma, com a sua experiência, assumiu quase sempre a liderança e nunca deixou de animar o grupo: o seu optimismo era enorme e contagiou-nos. Tinha iniciado a prova meia hora depois dos demais, pois pensava que a partida era ás seis e meia. Ao contrário de todos os outros participantes, nada levava para além da t-shirt, calções e sapatilhas: nem sequer relógio! Dizia que não queria preocupar-se com nada, só correr e desfrutar da paisagem e da aventura da montanha! E que bem correu! Creio que, sobretudo graças a ele, nunca nenhum de nós duvidou de que concluíssemos a prova. O António Rebelo, o mais jovem, "controlava" a prova com as indicações do providencial GPS e partilhava boa disposição e a comida que carregava ás costas numa mochila de dimensões apreciáveis. Fez também as fotos de grande qualidade que podes ver no link que sugeri. O Belo, veterano, sorria e transmitia confiança.

 

 

A verdade é a segunda metade da prova, na companhia deste grupo, se fez em bom ritmo, quase sempre a correr, Apesar das subidas e descidas, do cansaço acumulado e do agravamento das condições metrológicas, a meta aproximava-se a bom ritmos e já nenhum de nós tinha dúvidas de que conseguiríamos chegar ao fim. Nos postos de abastecimento, localizados em aldeias, parámos sempre para descansar beber e comer e para confraternizar alegremente com quem lá estava. Num dos postos, a cargo de uma jovem e uma senhora de uma aldeia da serra, contrapuseram, orgulhosas, ao nosso feito no Ultra Trail, as proezas das suas caminhadas para Fátima. Ao longo dos 50 km, o percurso ora nos levava por montes e vales a corta mato, ora nos trazia até aldeias. Atravessámos várias aldeias, talvez umas oito. È incrível constatar como ainda se vive em grande pobreza, sem saneamento e sem conforto. Os caminhos de acesso e os que atravessam as aldeias, estão cheios de dejectos que nalguns casos fluem livremente de cortes de animais. Aparentemente pratica-se uma agricultura e pastorícia precárias e vive-se com dificuldade. Vêm-se sobretudo pessoas idosas, curvadas pelo trabalho. Dá para sentir que a vida por aquelas aldeias é feita de sacrifícios e de esforços diários. Mas sabia bem aqueles encontros esporádicos com pessoas proporcionado pela travessia das aldeias, o “bom dia” ou “boa tarde” amigável à nossa passagem, a piada ocasional e os abastecimentos que quase sempre representavam. O Ultra Trail da Freita proporciona um contacto intenso com a natureza, paisagens escondidas de rara beleza, mas também um contacto com a realidade da vida na serra e com as pessoas que aí vivem.

 

 

A última aldeia que atravessamos foi Castanheira, célebre pelas famosas “pedras parideiras”. O António Rebelo fez uma excelente foto de uma dessas pedras e eu apanhei algumas das pequenas pedras “paridas”, expulsas pela pedra mãe, que trouxe comigo para depois oferecer ás pessoas queridas em quem me ia inspirando durante a prova. O “meu” grupo ia progredindo em muito bom ritmo, embora as dores fossem já muitas e se corresse com dificuldade. Nesta fase ultrapassamos até alguns corredores. Curioso que todos eram corredores isolados, sugerindo-me que o facto de corrermos tantos kilometros em grupo nos trazia de facto uma força extra. Isso e o espírito bem disposto com que o fazíamos, bem como as confortáveis paragens nos postos de abastecimento. E, no meu caso, talvez a ajuda do bastão. Quando o caminho se empinava, ora a subir, ora a descer, havia que reduzir o ritmo e caminhar. Claro que mesmo nessas alturas a frequência cardíaca se mantinha elevada, pois mesmo caminhando o esforço era grande. O mais difícil era, passados esses momentos, retomar a corrida. Calculo que a partir dos 30 km, tal revelava-se especialmente penoso. Nesses momentos decisivos, valeu mais uma vez o grupo. Havia sempre um que começava a correr, e os outros lá seguiam. Cada um sentia a “obrigação” de cumprir a sua quota parte, e lá se ia buscar forças não se sabe onde, para retomar a corrida. Depois de recomeçar, até nem era tão difícil manter. Por essa altura já o corpo se tinha habituado e funcionava quase em automático. Doía, claro, mas se umas horas atrás dominava o receio de exaustão inesperada ou de uma lesão, agora imperava a convicção de que chegaria ao fim. Tentava ter muito cuidado para não deitar tudo a perder com uma queda mais aparatosa e alguma entorse ou fractura, mas sentia que, caso tal não acontecesse, a aventura seria coroada de sucesso.

 

E assim foi. Pena que a 200 metros da meta na pequena confusão da queda de água da Mizarela, e creio que na tentativa por parte do António de fazer mais uma foto, nos tivéssemos separado. Ainda gritei aos Antónios que daquele local não veriam a queda, mas penso que eles foram atrás de mais uma foto ou da vista da queda de água. A nossa atenção também foi atraída para dois companheiros que se enganaram seguindo em frente pela estrada e a quem gritei para que dessem conta do erro. Com essa confusão momentânea e o "cheiro" da meta, mais o entusiasmo dos meus amigos do Porto Runners que vieram ao encontro dos que concluíam a prova, aconteceu que só nos voltámos a reunir já depois da chegada, para um abraço e para a foto final. Assim se construiu uma equipa e uma amizade que uma das fotos do António Rebelo perpetua e que aventuras futuras por certo irão reavivar. Fiquei muito grato aos companheiros de meio Ultra Trail da Freita.

 

 

A sensação no final é indescritível. Valeu a pena! Um desafio superado, um titulo de ultramaratonista conquistado. Ainda por cima de montanha! A aproximação à meta faz-se por terreno que conheço como as minhas mãos por ter acampado aí muitas vezes na adolescência. Esse terreno tão carregado de memórias agradáveis motivou-me. Estava entregue a essas sensações quando, do meio do nada, ouvi o meu nome gritado com excitação: era a Conceição Grare e os amigos do meu clube, o “Porto Runners” que haviam corrido a prova de 15 km e que há várias horas nos esperavam! Aquela demonstração de amizade e de solidariedade comoveu-me. Ouvir o meu nome gritado e o pequeno grupo aos pulos junto da ponte que marcava o acesso à meta entusiasmou-me. Corri com força e com alegria. Levava já mais de oito horas e meia nas pernas, mas naquele momento sentia-me capaz de continuar a correr. Na meta eram muitos os amigos e os abraços. Abraços de ultramaratonistas mais experientes e com feitos bem mais ousados, que me acolheram como um “dos seus”. Abraços de amigos que já tinham entretanto concluído a prova ou de outros que tinham ido para a caminhada ou os 15 km.

 

 

Ainda fiquei pela meta durante quase 2 horas a conviver com a malta e a saudar efusivamente cada um dos que chegavam, comemorando com cada um. Os cinco do meu grupo estávamos finalmente reunidos na meta. Com mazelas, mas ilesos e fortes. Estava também a Ana Gomes que é uma muito jovem médica com cujo sucesso fiquei muito contente, e a Célia Azenha, talvez o maior sorriso da prova. Já não estava, com pena minha, o Dean Karnazes que fez a prova em sete horas e meia, certamente “a passear”. O que fiz depois dos abraços de felicitações, foi comer marmelada, imensa marmelada, talvez o equivalente a mais de uma “malga”, seguramente mais de 1kg. E só comi marmelada. Foi sendo bem aceite pelo estômago, o que me surpreendeu, e parecia que cada colherada levava directamente o açúcar ao sangue e ao cérebro, uma sensação muito agradável. Bebi bastante e recebi uma massagem de um simpático jovem de S. João da Madeira. Aliás a dedicação de todos os voluntários que tornaram esta aventura possível foi contagiante, desde os que estiveram nos pontos de controlo, um tipo que aparecia de moto quatro nas imediações dos controlos a confirmar que se estava no caminho certo, alguns socorristas da cruz vermelha que apareciam em pontos recônditos a que acediam de bicicleta de montanha, os massagistas, as senhoras do abastecimento no final, etc. Na zona da meta, já depois das 3 da tarde e com um céu de chumbo, fazia frio: mesmo já de calças compridas, t-shirt, camisola, corta-vento e casaco impermeável (quatro níveis de roupa em Julho!), mesmo assim sentia frio!

 

Depois de quase duas horas de animado convívio na zona da meta com muitos amigos e companheiros de aventura, estava a sentir-me cansado. Meti-me no carro, com aquecimento ligado, e desci até A... e aos mimos da Avó Bita e ao entusiasmo e os mil cuidados do Avô Armando. No carro, já com rede no telemóvel, aproveitei para dar notícia do meu feito. Chegado a casa dos avós, fui directo para um chuveiro quente de 15 minutos, roupa confortável e... toca a esticar no sofá, na conversa até adormecer para uma bela sesta retemperadora de uma hora. Mesmo coberto com uma manta quente, sentia bastante frio. O organismo em deficit. O pior foi que de cada vez que adormecia via um precipício, uma descida vertiginosa, pedras rolando sob os pés, ao que se seguia de imediato um acordar súbito perante uma queda eminente! Cheguei a pensar pedir um Valium à avó com receio de à noite, em casa, ter dificuldade em adormecer. Fiz a viagem até ao Porto de novo com o aquecimento do carro ligado. Chegado a casa mandei vir uma pizza que devorei com gosto e meti-me na cama, que o corpo pedia tréguas e o sono é o melhor para a recuperação muscular. Nem me lembrei de tomar um anti-inflamatório. Dormi onze horas seguidas. Esta manhã quando acordei, o que mais doía era o pescoço e a zona dorsal, entre as omoplatas! Mais do que as pernas! Fenómeno curioso! Foi o esforço prolongado, a tensão, olhar fixo no chão, o impacto constante durante muitas horas. A verdade é que todo o corpo ficou a doer, mãos, pés antebraços, ombros, costas, lombar, glúteos e, claro, as pernas! De manhã ao acordar era realmente difícil virar na cama! Ao longo do dia melhorou um pouco. De tarde, com um belo sol, obriguei-me a correr devagar 2,5 km ao longo do mar, Até nem custou e apesar das dores musculares soube bem sentir que podia correr. Creio também que fez bem aos músculos. Depois no ginásio fiz um pouco de bicicleta. Depois uma massagem de uma hora, pela Glória, massagem de corpo inteiro, um bálsamo! Depois 15 minutos no turco seguiu-se um chuveiro, e uma sessão na piscina, 400 metros a nadar bem devagar. À piscina seguiram-se 20 minutos relaxantes no jacuzzi. Depois chuveiro e casa, para jantar, recuperar e para escrever este mail enquanto a memória está fresca. Já estou pronto para outra. Estou convencido de que posso ir ainda mais longe. Pelo menos irei tentar. Espero! Pelo caminho fui pensando em coisas positivas e varias vezes pensei em ti e em como te poderias sentir orgulhoso podendo dizer que o teu pai é um ultramaratonista. Claro que de um pai isso é o que menos conta... Espero que a avaliação global não seja muito fraca; pelo menos o produto final, tu, é de grande qualidade. Um abraço e vê as fotos. Take care, tenta viver uma vida saudável and have fun!

 

Abraço grande do Pai.

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